Pelo direito de brincar

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Por: Joyce Trajano



O universo infantil é recheado de criatividade e imaginação. São esses elementos que a criança utiliza para processar as informações que recebe do mundo. E a melhor maneira de devolver essas informações ao mundo é através das brincadeiras. Quem observa uma criança brincando é capaz de entender o que está acontecendo com ela e o que se passa em sua cabecinha.

Entretanto, vivemos em uma época na qual as crianças estão sendo tratadas como pequenos adultos. A banalização dos meios de comunicação e o estímulo ao consumo desenfreado têm criado seres com desejos de adultos: são meninas levadas a demonstrar uma sensualidade exacerbada; são crianças cantando e dançando músicas de adultos e vestindo roupas de adultos (principalmente as meninas). Para onde vai a energia acumulada do universo infantil?

Atitudes como estas podem produzir um efeito extremamente nocivo às crianças. Fazendo com que elas deixem de experimentar aquilo que pertence à esfera infantil e passem a assumir posturas e demonstrar atitudes do universo adulto.

Para piorar a situação, com o crescimento do mercado imobiliário estamos perdendo as áreas verdes que seriam os locais mais adequados para as crianças passearem e brincarem. Ao invés disso, elas estão frequentando os shoppings (verdadeiros reinos do consumo), que são lugares fechados e sem espaços adequados para o divertir dos pequenos. Para onde vai essa energia acumulada?

Além disso, as famílias estão ocupando cada vez mais imóveis como apartamentos que, em sua maioria, oferecem áreas de lazer inadequadas aos pequenos. Quando os pobrezinhos não são submetidos às leis absurdas de silêncio, que lhes tolhem o direito de cantar, dançar e brincar; eles são obrigados a se adaptarem a espaços minúsculos e mal distribuídos (geralmente, próximos da garagem ou no caminho da mesma).

Sou da época que criança quieta era sinal de doença; hoje criança quieta é sinal de bom comportamento. Para elas a única saída que resta é recorrer ao computador. Pronto! As brincadeiras reais foram trocadas pelas virtuais, aliás, o mundo tornou-se um lugar virtual. Brincadeiras como pé na lata, taco, pega-pega, amarelinha, pula corda, corre cotia, entre outras se transformaram em coisas do arco da velha (para as crianças dos grandes centros urbanos) ou ficaram a cargo somente daquelas crianças que ainda habitam o interior do país.

Nossas crianças estão sendo moldadas para serem reflexo de um universo consumista que transpira uma falsa felicidade do “ter”. Nos dias de hoje, o “ser” se tornou artigo de luxo. Então, para onde vai essa energia acumulada?


Dentro dessas circunstâncias, o único ambiente que representaria um fio de esperança seria a escola, mas... Muitas delas não apresentam espaços adequados para que nossas crianças possam brincar, sim porque brincar também faz parte do universo educativo, aliás, é a melhor maneira de aprender! (como já afirmou Vygotsky). Resultado: mais energia acumulada.

A criança nessa situação tende a ser mais expressiva em suas opiniões e atitudes, de alguma forma ela precisa descarregar essa energia acumulada. Para a escola, esse indivíduo se tornou um problema, pois ele “conversa demais”, “anda demais pela sala”, “perturba o ambiente”, “atrapalha o desenvolvimento da aula” (entre outras falas preciosas). Provavelmente é um indivíduo que possui qualquer distúrbio como, por exemplo, hiperatividade e necessita de encaminhamento médico. Eis a solução de todos os problemas (da escola).

Que escolas e médicos me perdoem. Não quero dizer que nenhuma criança precise de encaminhamento, é óbvio que em situações específicas é necessário sim a avaliação de uma equipe multidisciplinar. Mas temos observado que em muitos casos, as crianças estão sendo medicadas sem nenhum exame mais detalhado e são receitados os “santos” remédios que as acalmam e as deixam mais sociáveis. Problema resolvido para a escola (que não terá mais um aluno desajustado) e para a família (que não receberá mais as reclamações da escola). Pergunto-me apenas: e como fica a criança nisso tudo?

Muitas delas estão sendo medicadas quando na verdade só precisavam de um espaço para brincar, para descarregar a energia acumulada, para sonhar, para expressar as emoções e para processar as informações recebidas deste mesmo mundo que as rotulam como problemáticas.

Bom, se não há mais espaço para brincar, para se construir a comunicação e desenvolver a socialização através das brincadeiras. Se não há mais como estreitar os laços de amizade através da interação com amigos de verdade (reais!), o que estamos fazendo com essas crianças? Sendo bem realista... Nós estamos matando nossos pequenos, juntamente com os direitos de brincar e de se divertir. Estamos criando pequenos adultos carrancudos, que acreditam que tudo pode ser resolvido aqui fora como na “second life” do computador.

É muito importante relembrar que o direito de brincar está garantido na Declaração dos Direitos Humanos (do qual o Brasil é signatário) em seu artigo 31, que diz:

“1. Os Estados Partes reconhecem o direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística.

2. Os Estados Parte respeitarão e promoverão o direito da criança de participar plenamente da vida cultural e artística e encorajarão a criação de oportunidade adequadas, em condições de igualdade, para que participem da vida cultural, artística, recreativa e de lazer.”


No Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também temos a garantia desse direito, em seus artigos 4º e 16º (parágrafo IV).

O mais interessante de tudo: este é o único direito não incluso nas discussões das políticas públicas do país, por que será?

Precisamos atentar para o fato de que o ato de brincar está intimamente ligado ao desenvolvimento saudável da criança, e também contribui (se não for o fator mais determinante) para a disseminação de valores em direção a construção de uma cultura de paz entre nossas crianças e jovens.


É preciso olhar para nossos pequenos e aceitar um pedido simples feito, muitas vezes, somente pelo olhar: vem brincar comigo?

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