Ganhei um amigo Asperger: conheça as sutilezas e particularidades desta síndrome

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Por: Joyce Trajano



A Vicky nasceu sem nenhum problema de saúde e agradeço a Deus todos os dias por isso. Logo, vocês devem estar se perguntando o porquê de ter me interessado por este assunto que é tão pouco conhecido da maioria. Além de mãe, sou professora, sendo assim estou cercada de crianças na maior parte do meu tempo. E foi dessa maneira que tive meu primeiro contato com este assunto – através de um aluno (que por questão de privacidade vou chamá-lo apenas de W.) portador da Síndrome de Asperger.

Nunca tinha ouvido falar nesta síndrome e não tinha a menor ideia de como ela se apresentava; quais eram suas características; como lidar com alguém que fosse portador dela ou até que ponto ela poderia influenciar no processo de ensino-aprendizado. Só sabia que a partir daquele momento W. era minha responsabilidade e precisaria buscar o maior número de informações possíveis para melhorar nossa comunicação e trabalho.

Confesso que me surpreendi com as descobertas que fiz e mais ainda com W. que revelava a cada dia um novo aspecto seu, ensinando-me sempre algo novo. Creio que na verdade ele foi meu professor e eu sua aluna. Admito que a convivência foi sendo conquistada a cada dia, tivemos muitos altos e baixos, mas posso afirmar com certeza que nós pais, professores, familiares e sociedade não devemos desistir!

Por isso, quero partilhar com vocês as informações que consegui ao longo desse período e espero que elas sejam úteis para você que tenha um filho com Asperger, que conhece alguém portador desta síndrome ou mesmo que nunca tenha ouvido falar nela, mas que de repente se interessou em conhecer um pouco mais sobre o assunto.

Só posso dizer que vocês se surpreenderão porque eles são magníficos!

W. chegou à escola e logo percebemos que havia algo de diferente. Sua mãe nos disse que ele era portador da Síndrome de Asperger. Ela não nos deu muitos detalhes sobre a síndrome, apenas nos passou algumas recomendações – talvez por medo da discriminação que seu filho poderia ficar exposto, o que é uma reação natural nas mães.

Bom, agora o trabalho era nosso e, em particular, meu, pois seria a professora de W. e, portanto, a pessoa que passaria a maior parte do tempo com ele na escola.

Através de algumas pesquisas descobri que a Síndrome de Asperger pertence à família do autismo, diferenciando-se por não comportar nenhum atraso ou retardo global no desenvolvimento cognitivo ou da linguagem do indivíduo. É uma perturbação neurocomportamental resultante de uma desordem genética. Apresenta-se mais comumente em indivíduos do sexo masculino, e quando adultos muitos podem até viver de forma comum, claro que enfrentando as dificuldades características da síndrome. Mas, quais são estas características?

Algumas delas são: dificuldade de interação social, dificuldade em processar e expressar emoções (este problema faz com que as outras pessoas se afastem por pensarem que o individuo não sente empatia), interpretação muito literal da linguagem (eles levam tudo ao pé da letra), dificuldade com mudanças em sua rotina, com pessoas desconhecidas, ou que não vêem há muito tempo, além de comportamentos estereotipados. No entanto, isso pode ser conciliado com desenvolvimento cognitivo normal ou alto.

Os Aspergers também podem apresentar interesses específicos e restritos ou preocupações com um tema em detrimento de outras atividades; rituais ou comportamentos repetitivos; peculiaridades na fala e na linguagem; padrões de pensamento lógico/técnico extensivo; habilidade de desenhar para compensar a dificuldade de se expressar verbalmente; transtornos motores: movimentos desajeitados e descoordenados, por não saberem usar os movimentos corporais adequadamente na comunicação e frequentemente possuem um Q.I. verbal significativamente mais elevado que o não verbal.

Socialmente sua principal característica é a falta de habilidade natural em perceber as entrelinhas dos textos sociais, literalmente eles levam tudo ao pé da letra, por isso a comunicação com eles deve ser feita de maneira calma e delicada. Apresentam também muita dificuldade em demonstrar e expressar suas emoções. Muitas vezes acabam fazendo comentários que podem soar ofensivos, apesar da boa intenção, até para as pessoas mais compreensivas. Eles não conseguem captar as informações sobre o estado emocional de outras pessoas baseadas em pistas deixadas no ambiente social e em traços como a expressão facial, linguagem corporal ou humor, isto é o que chamamos de "cegueira emocional". Não conseguem deduzir o que o outro deseja ou espera dele. Os Aspergers precisam aprender as aptidões sociais intelectualmente de maneira clara, seca e lógica como matemática, ao invés de intuitivamente através da interação emocional normal.

O diagnóstico da síndrome é complexo, já que não existe um exame clínico específico para determinar se o indivíduo é ou não um Asperger. O que os especialistas utilizam são diversos instrumentos de avaliação como, por exemplo, o CID 10 da OMS (Organização Mundial de Saúde) com testes e entrevistas para realizar o diagnóstico. Em crianças o diagnóstico é mais fácil, uma vez que os adultos já aprenderam de forma racional a mascarar os seus erros sociais. Portanto, quanto mais cedo a família procurar ajuda e orientação melhor.

Assim era W., um menino portador de Asperger com dificuldades de interação e comunicação; extremamente interessado por aviões e tudo o que dizia respeito ao assunto; excelente desenhista e que aos poucos foi conquistando o respeito e a admiração de todos. É lógico que a caminhada foi longa até que todos percebessem e entendessem seus momentos e habilidades.

Para facilitar o convívio dentro da escola recomendo que a instituição siga as recomendações dadas para o autismo, respeitando o tempo do aluno e promovendo sua interação com os colegas. As conversas com o aluno portador de Asperger devem ser feitas sempre de maneira clara e objetiva. Além disso, estímulos visuais ajudam na comunicação já que eliminam as distrações causadas pelos ruídos externos. Como são alunos com interesses específicos, outra dica é explorar e desenvolver atividades dentro daquilo que mais os agradar. Caso a rotina precise ser mudada, o aluno deverá ser comunicado previamente.

O mais importante de tudo isto é não entrar em desespero e lembrar que admitir, acolher e aceitar a diferença é um trabalho árduo e bem mais do que um desafio, é uma missão para cada um de nós.

Para conhecerem um pouco melhor o assunto, recomendo que assistam ao desenho “Mary e Max – uma amizade diferente” (dirigido por Adam Elliot e lançado no Brasil pela PlayArt) que fala da síndrome de maneira envolvente e emocionante!

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