Bebês saindo do forno...

forno

Por: Joyce Trajano



No mês passado, a 23andMe, Califórnia (EUA), causou furor no meio científico. Ela registrou a patente para um teste de DNA que permite aos receptores de óvulos e esperma doados, fazer a escolha de algumas características do futuro membro da família.

Segundo a empresa, o método de seleção de gametas envolve o rastreamento de genes que podem definir as características físicas, emocionais e intelectuais do bebê, indo das mais triviais até as mais complexas. A 23andMe diz que pode oferecer a receptores de óvulos ou esperma à identificação dos doadores mais propensos a transmitir determinados traços, como cor dos olhos e estatura, chegando a informações como expectativa de vida e porte atlético.

O método usa um algoritmo para cruzar dados do doador e receptor dos gametas de forma a potencializar as chances de uma criança ganhar as características tão desejadas pelos pais. As possibilidades são oferecidas como se estivessem em um menu de computador, no qual o usuário pode escolher os atributos desejados e submeter seu pedido a uma busca pelo melhor doador.

Ainda segundo a empresa, é possível escolher até o sexo do bebê, item proibido na maioria dos países (incluindo o Brasil) na regulamentação para tratamentos de fertilidade.

Para fugir de maiores polêmicas, a empresa alega que a patente se aplica a um produto que ela já oferece aos clientes – uma calculadora de hereditariedade de traços familiares. O objetivo da patente seria apenas o de proteger os algoritmos usados na “calculadora”.

A liberação da patente tem sido questionada por um grupo de eticistas que acreditam que o método pode ser utilizado de forma incorreta. O medo está no perigo de tal prática estimular a eugenia (o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente - termo criado por Francis Galton – antropólogo e matemático inglês), caso caia em mãos erradas. Por isso, eles solicitam que a 23andMe se comprometa a combatê-la.

Ainda assim, em comentário na revista científica Genetics and Medicine, o grupo questiona a concessão: “Em nenhum estágio durante a análise do pedido de patente, o examinador questionou se as técnicas que facilitam 'projetar' futuros bebês humanos seriam objeto apropriado para patentes" afirma o grupo, liderado por Sigrid Sterckx, da Universidade de Ghent, na Bélgica.

Por outro lado, alguns geneticistas independentes não se opõem ao método, mas desde que o mesmo esteja voltado apenas para a prevenção do desenvolvimento de determinadas doenças nas crianças. Eles acreditam que a seleção dos genes deve ser limitada, afinal de contas os filhos não são brinquedos ou roupas que podem ser escolhidos e Co de certas doenças é ponto positivo, por outro, o perigo de retrocedermos na História e facilitarmos o aparecimento de pessoas com ideias relativas a construção da “raça pura” é fator extremamente negativo.

Para alguns eticistas essa é a chance da 23andMe provar que “é séria ao agir com responsabilidade nesse assunto, caso anuncie que vai usar sua patente para impedir terceiros de tentarem adotar essa tecnologia" diz Marcy Darnoovsky, diretora-executiva do Centro para Genética e Sociedade (ONG de atuação no setor de genética e reprodução).

Outra questão deve ser levada em consideração, a complexidade da genética humana possibilita que as características prometidas pela empresa sejam realmente “entregues” quando o bebê nascer? Como reclamar e a quem recorrer se a criança não nascer da forma que os pais desejam?

De qualquer forma, devemos acompanhar o caso, pois esse caso promete fomentar ainda muitas discussões, uma vez que a própria empresa já foi acusada, anteriormente, de divulgar dados de alguns doadores sem a devida autorização para o registro da patente de um teste de DNA que detectaria o mal de Parkinson.





Fontes:
Folha de S. Paulo (04/10/2013)

http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2013/10/noticias/cidades/1462954-empresa-faz-patente-de-metodo-para-escolher-da-cor-dos-olhos-ao-risco-de-doencas-no-bebe.html (03/10/2013)


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